sábado, 14 de junho de 2008

A ABORDAGEM DOS MEDOS E DA RUPTURA

MULHER DESAPARECIDA A SUL, de Modesto Navarro Que nos amamos pouco e mal, todos o sabemos. Por vezes, amargamente o sabemos. Garrett avisou-nos, mas de pouco nos serviu. Continuamos, sobranceiros e diligentes, a ignorarmo-nos mutuamente. Conseguimos amar o que nos chega de fora, a assimilar acrítica e devotadamente, todos os subprodutos que os impérios mediáticos promovem, com mão operativa e marketing agressivo, levando-nos ao consumo desbragado e irracional. Assim, nesta deriva consumista, nos fomos ao longo dos anos (com claros e graves sinais, a partir dos anos 1980) aculturando e transformando numa massa acrítica, consumidores passivos e sentados nas ameias do sofá de todo o género de produtos culturais estranhos, promovidos em caixa alta e primeiras páginas pelos media de serviço. Esquecemos, ou levaram-nos a esquecer, que num mundo globalizado como este em que vivemos, os povos que não assumem a sua identidade cultural, que não respeitam e promovem os seus valores patrimoniais, tenderá a desaparecer no confronto cultural com outros povos. E um povo, para o ser enquanto identidade colectiva, precisa de referentes, de sinais, de raízes. Só nesse confronto se afirmará singular, só impondo a diferença à diversidade global, a nossa identidade cultural nos poderemos afirmar como povo autónomo livre e respeitado no confronto com outras culturas que de há muito perceberam que a verdadeira marca, que a perenidade da sua passagem pelo espaço que nos é comum, passa indubitavelmente pela capacidade e génio criador dos seus povos. Tudo o resto é volátil e de passagem. António Damásio, afirmou, numa conferência realizada na Gulbenkian, que não cabe à matemática moldar o homem ou o seu carácter de cidadão: essa é tarefa primordial e exclusiva da cultura. Só se aprende a andar, andando, escreveu o poeta espanhol António Machado. Os nossos passos, enquanto povo, passam impressivamente pela nossa história política, cultural e artística. Sem esses referentes memoriais, criativos e históricos, perdemos identidade, fundimo-nos sem honra nem glória (e sem previsíveis vantagens económicas) no espaço global das mediocridades normalizadas. Um povo que não ama, não protege, ou não promove a sua Literatura (ou a Música, a Pintura, a Dança, o Património, a História) se não está morto está, certamente, moribundo. Sábio aviso de mestre Almeida Garrett. A Literatura, aquela que ficcionalmente nos conta (e há, por muito que a tentem apagar, uma história recente que a ficção portuguesa precisa de contar de forma escorreita e asseada, para que se não dilua no cortejo infamante de todos os revisionismos oportunistas que por aí pululam, tendentes a criar o caldo de cultura necessário à desforra que almejam), precisa de se afirmar, de se mostrar, de se impor. Depois dos desvarios que uma escrita soporífera inculcou no nosso tecido editorial (território escasso, como sabemos, onde a iliteracia campeia ufana, sector vivendo à míngua e em permanente crise e por isso permeável a todas as golpadas e aos mais inconfessáveis desígnios), uma escrita mais séria, mais reflexiva e esteticamente sedutora, começa a emergir e a fixar públicos. Neste panorama promissor, é justo salientar o nome de José Casanova que à ficção portuguesa trouxe, em três livros incontornáveis, a memória do país que fomos entre os anos 30 e meados dos anos 70 do século 20, mas igualmente José Saramago com esse brilhante romance que é Levantado do Chão., sinfonia maior da nossa escrita contemporânea. Os anos que se seguiram à revolução de Abril de 1974, trouxeram, para além da liberdade democrática, de uma reformulação nas relações de trabalho, das melhorias sensíveis das condições económicas e do geral acesso à cultura e ao ensino, transformações profundas na organização estrutural das relações entre géneros: a mulher emancipava-se, competia com o homem no mundo do trabalho, começava a frequentar, e a afirmar-se, em número cada vez mais crescente, no território académico. Saíamos de uma sociedade patriarcal, opressora, fortemente dominada pelo homem nos aspectos mais elementares da vida quotidiana, para a súbita descoberta do outro, da identidade e da singularidade do outro – o homem descobria, com alguma perplexidade inicial, que a sua companheira não era apenas a fada do lar que décadas de obscurantismo salazarista haviam formatado nos imaginários comportamentais dos portugueses, mas era um ser autónomo, criativo, exigente e insubmisso. A esposa da Carta Guia de Casados de D. Francisco Manuel de Melo, cujos contornos essenciais permaneceram imutáveis na sociedade portuguesa desde 1650 (data da publicação do texto de Francisco Manuel de Melo), até aos anos 1960, (1) desmoronara-se no tempo veloz de uma (1) – Nos anos 1940, sob a égide dos conceitos de Família de Salazar, o proto-fascista Luís Carreira, publica o livro Namoro e Casamento, autentico Guia de Casados do Estado Novo. década. Entre nós, e por força de uma opressão vigilante, atenta aos mais ínfimos sinais dos auto denominados bons costumes e fidelidade conjugais, fidelidade que os decantados “bons costumes” apenas impunham à metade mais frágil, as primeiras manifestações públicas do feminismo iniciam-se, de forma corajosa, com Maria Lamas nas páginas da revista Modas e Bordados e nesse estudo fundamental que é Mulheres do Meu País, alcançando em 1971, com a publicação das Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, uma maior visibilidade, graças ao mediatismo que as suas autoras conseguiram junto da comunicação social – aproveitando, claro, a fugaz abertura da primavera marcelista. Há escritores que transportam aos ombros – muito para além da argamassa das memórias da vida e do vivido com que estruturam os textos – o peso do social que transparece acutilante na sua escrita. Sartre chamou-lhe engagement, chamar-lhe-ei, para uma mais fácil compreensão, uma escrita comprometida com a história e com o pulsar do seu tempo: uma literatura sem embustes. Mesmo quando o autor, pelo rigor e mestria do seu laboratório literário, consegue elidir essa particularidade, ela está impressa no texto, é indissociável do estilo, do diegético que atravessa a obra. Encontramos este comportamento narrativo nas obras mais recentes de Urbano Tavares Rodrigues, mesmo quando o autor, aparentemente, só nos quer falar das degenerescências comportamentais que atravessam e inquinam a vida nas sociedades contemporâneas: só que essa degenerescência não acontece por acaso, não surge do nada – há razões sociais e políticas que contaminam os comportamentos, que inoculam os vazios, a solidão, o desencanto, a desesperança, a usura: uma espécie de húmus que subterraneamente nos vai tomando por dentro e invade o espaço colectivo. O comprometimento social, esse crítico e arguto olhar sobre o real, não é descoberta dos autores portugueses contemporâneos. Já Fernando Pessoa, pegando pelo lado menos sórdido do modernismo definido por Marinnetti, anunciava que as grandes depressões sociais e políticas são terreno fértil para o aparecimento da grande literatura e que esta, pela sua genialidade poderá influir nos destinos da humanidade. Aparte a sebastianica assumpção pessoana, o certo é que a literatura que denunciou e tomou partido no coro das denúncias dos atropelos dos poderes em relação aos direitos fundamentais da condição humana, foi determinante para influenciar vastas camadas da opinião pública que, a partir de alguns textos fundamentais, começou a olhar criticamente a realidade circundante e a indignar-se de maneira mais consciente e activa. Aconteceu com John Steinbeck, ao inscrever a dor e as feridas que a grande depressão imprimira no tecido social americano, também com John dos Passos, denunciando uma sociedade estruturalmente corrupta e o capitalismo como um sistema decadente arvorado em civilização, na generosidade militante e combativa de Hemingway, Zola, Gorky, Calvino, Morávia, Brecht, os portugueses que protagonizaram a primeira incursão neo-realista, Soeiro Pereira Gomes, Ferreira de Castro, Alves Redol, Manuel da Fonseca. E a geração que, embora solidária com algumas questões suscitadas pelo neo-realismo, se deixaram seduzir pelos movimentos estético-literários emergentes no mundo anglo-saxónico e, sobretudo, em França: José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Augusto Abelaira, José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues e, já nos anos setenta do século XX, a geração que foi à guerra e sofridamente no-la revelou: Modesto Navarro, Lobo Antunes, João de Melo, Fernando Assis Pacheco, Manuel Alegre, Álamo Oliveira e eu próprio. A esta geração que foi à guerra e voltou, depois do exercício catártico de a dizer (e não será estulticia afirmar que essa literatura é já hoje um sub-género literário que cada vez mais se afirma pujante na história recente da nossa ficção, com novos e interessantes títulos recentemente publicados, entre os quais salientamos Diário da Guiné 1968/69, de Mário Beja Santos) ficou-lhe o espaço de uma revolução para reflectir e sobre ela efabular. Poucas gerações como a nossa se poderão regozijar de terem atravessado tão prodigioso período histórico, tendo vivido e sofrido tão extraordinárias e díspares experiências, que vão da mais ultramontana repressão, à censura bacoca, ao sórdido dos anos da guerra, até aos dias absolutos e solares do nosso júbilo libertário. Um manancial único que urge aproveitar e reinventar criativamente. O nosso mais recente cinema começa a reflectir esta realidade que a literatura, pelos constrangimentos conhecidos, tarda em assumir. Modesto Navarro, desde esse cáustico romance do começo do nosso desencanto que é A Meio da Ponte, romance onde o autor assume o retrato triste, por vezes nostálgico, de uma geração que tentou mudar os rumos da história e verifica, angustiada e incrédula, olhando ao espelho o esbranquiçar da gaforina, ou a sua total ausência, que nem a si, ou aos próximos, conseguiu mudar substantivamente. Ora, a angústia que atravessa A Meio da Ponte, muda-se com armas, bagagem e refinamento de processos, para esta nova novela do autor de O Coração da Terra. Modesto Navarro consegue na novela Mulher Desaparecida a Sul, um ritmo consentâneo com o objecto narrado, um eixo de similaridades até então ausentes, ou só a espaços verificáveis na sua escrita. Há uma suspensão nos modos desta fala, uma interioridade sensível, a lenta descida ao âmago das nossas indescobertas feridas interiores. Nesta novela é o homem que arrasta a suprema humilhação de se saber rejeitado, o homem a quem a ruptura fere como um ultraje insuportável, até à violência que o ciúme incendeia. João é o retrato de um tempo insubmisso, vítima, se quisermos, da volatilidade das relações entre homem e mulher, do efémero da paixão, a que a liberdade veio, de forma crua e violenta, tirar a máscara hipócrita que as pretendia eternizar no limbo da paciência, por que Deus é misericordioso e compensa com juros, galáxias celestiais e brancas asas do paraíso quem na terra sofra infernos e ultrajes. Estamos, neste terreno dos afectos, cada vez mais sós e responsáveis únicos pelos nossos actos: daí a angústia sem remissão. João permanece apaixonado por Elisa mas ela já não o ama, precisa de espaço, diz-lhe, um outro espaço onde possa finalmente afirmar-se em plenitude, ser plenamente – estranha e insuportável rebeldia, vinda de uma mulher ainda ontem submissa, ainda ontem partilhando sonhos, dificuldades, um filho, a vida – mas o futuro é o tempo que passa, é o momento único e irrepetível que vivemos, e o amor só é eterno enquanto dura, como escreveu o Vinícius que do amor e da sua efemeridade sabia tanto como de um bom uísque de malte. Maria Lamas, em Mulheres do Meu País, já decifrara esse purgatório das frustrações ocultadas, que Modesto Navarro inscreve neste livro. “Ao debruçar-se sobre a vida doméstica (“oásis onde – segundo Salazar – os filhos de Portugal são formados”), Maria Lamas encontra não o santo equilíbrio de que os salazaristas e outros conservadores faziam o panegírico, mas um sistema fechado sobre si mesmo que tendia à amargura e ao inevitável desgaste dos mais fortes afectos”. (1) É deste purgatório tolhedor que Elisa tenta, em ruptura, escapar. (1) – Maria João Martins – O Paraíso Triste – Pág. 119 - Ed. Vega O triângulo amoroso completa-se com Eduardo, que ama Elisa e a quem ela se entrega mais por necessidade de fuga a um quotidiano sufocante do que por verdadeiramente o amar. Elisa é uma mulher em busca do seu espaço, da sua identidade, do seu lugar: essa busca é obsessiva e não deixa lugar no peito para as amarras da paixão. Por isso, sabedora dessa impossibilidade, Elisa desaparece algures numa praia do sul, ou morreu de intoxicação alimentar – suspensão e dúvida, o leitor que conclua que para isso foi convocado e se fez cúmplice. Com Eduardo regressamos ao imaginário mais impressivo de Modesto Navarro, às suas memórias da terra transmontana, à vila, à oficina, ao espaço dos afectos primordiais. E é no contar as estórias desse espaço, no sensível diegético que as enforma, que esta fala se alarga e ganha asas, é mordente e tocante de clamor e êxtase, como acontece em algumas das melhores páginas de O Coração da Terra. Modesto, para nosso contentamento, traz o coração atravessado dessas memórias e no-las vai vertendo, com parcimónia que roça a timidez, ao longo das páginas da sua já considerável obra. Com esta novela, o autor de Seis Mulheres na Madrugada, regressa à análise das relações dos casais no Portugal pós 25 de Abril de 1974. Modesto Navarro, serve-se de uma estrutura narrativa próxima do policial (género em que o autor se movimenta dextro), para nos falar das relações falhadas (tema já abordado em A Insubmissa) da angústia e dos medos que perpassam este nosso tempo e tocam uma geração que se sente à deriva e desapossada de referentes identitários num país que, depois da esperança e da solidariedade libertária, enfrenta desarmada e confusa a cupidez neo-liberal. Mulher Desaparecida a Sul, é uma novela construída sobre os estilhaços do desencanto e dele o autor, com um despojamento narrativo exemplar, na forma como as elipses se estruturam (há algo de faulkeleriano neste modo de contar) traça um impressivo, nostálgico e arrebatado retrato. Mulher Desaparecida a Sul é, portanto, uma novela vigorosa e sensível, abordando os nossos medos face a um mundo que desaba e do qual não sabemos prever o futuro que virá. A vida e seus inumeráveis segredos. Brilhante começo de uma nova colecção da Cosmos, que se assume como biblioteca onde os autores portugueses de referência poderão encontrar espaço para a publicação de textos que expressem as profundas inquietações deste nosso tempo.
in; Domingos Lobo

Sem comentários: