segunda-feira, 4 de maio de 2009

U.D.C.



União Desportiva de Chamusca



Fundada em 31 de Março de 1989
Tem estatuto de Associação de Utilidade Pública Desportiva
Morada: Avenida Almirante Gago Coutinho 2140-051 Chamusca
Telefone: 249 760 105 Fax: 249 760 105 :
Fundadores:
António Ildefonso Barreto
António José da Silva Campos
Joaquim José Duarte Garrido
João José Delgado Cardador
Custódio da Luz Aranha ( Falecido )
Manuel Jorge Gomes ( Falecido )
Eurico da Silva Gomes ( Falecido)
 

sexta-feira, 1 de maio de 2009

História do dia do trabalhador





No dia 1º de Maio de 1886, 500 mil trabalhadores saíram às ruas de Chicago, nos Estados Unidos, em manifestação pacífica, exigindo a redução da jornada para oito horas de trabalho. A polícia reprimiu a manifestação, dispersando a concentração, depois de ferir e matar dezenas de operários.
Mas os trabalhadores não se deixaram abater, todos achavam que eram demais as horas diárias de trabalho, por isso, no dia 5 de Maio de 1886, quatro dias depois da reivindicação de Chicago, os operários voltaram às ruas e foram novamente reprimidos: 8 líderes presos, 4 trabalhadores executados e 3 condenados a prisão perpétua. Foi este o resultado desta segunda manifestação.
A luta não parou e a solidariedade internacional pressionou o governo americano a anular o falso julgamento e a elaborar novo júri, em 1888. Os membros que constituíam o júri reconheceram a inocência dos trabalhadores, culparam o Estado americano e ordenaram que soltassem os 3 presos.
Em 1889 o Congresso Operário Internacional, reunido em Paris, decretou o 1º de Maio, como o Dia Internacional dos Trabalhadores, um dia de luto e de luta. E, em 1890, os trabalhadores americanos conquistaram a jornada de trabalho de oito horas.
116 anos depois das grandiosas manifestações dos operários de Chicago pela luta das oito horas de trabalho e da brutal repressão patronal e policial que se abateu sobre os manifestantes, o 1º de Maio mantém todo o seu significado e actualidade.
Nos Estados Unidos da América o Dia do Trabalhador celebra-se no dia 3 de Setembro e é conhecido por "Labor Day". É um feriado nacional que é sempre comemorado na primeira segunda-feira do mês de Setembro e está relacionado com o período das colheitas e com o fim do Verão.
No Canadá este feriado chama-se "Dia de Oito Horas". Tem este nome porque se comemora a vitória da redução do dia de trabalho para oito horas.
Na Europa o "Dia do Trabalhador" comemora-se sempre no dia 1 de Maio.

domingo, 26 de abril de 2009

Liberdade


Para se compreender a relação entre a liberdade e a responsabilidade é necessário, primeiro que tudo, conhecer o que significam estas liberdades e a sua integração no contexto filosófico.
A palavra liberdade tem uma origem latina (libertas) e significa independência. Etimologicamente, a palavra responsabilidade também vem do latim (respondere) e significa ser capaz de comprometer-se.
No senso comum, liberdade é uma palavra que pode ser definida em variados sentidos (liberdade física, liberdade civil, liberdade de expressão…). Filosoficamente, a liberdade, e mais concretamente a liberdade moral, diz respeito a uma capacidade humana para escolher ou decidir racionalmente quais os actos a praticar e praticá-los sem coacções extremas. É de carácter racional, pois os homens devem pensar nas causas e consequências dos seus actos e na sua forma e conteúdo. Esta liberdade não é absoluta, é condicionada e situada. Condicionada porque intervêm no seu exercício múltiplas condicionantes (físicas, psicológicas…). Situada porque se realiza dentro da circunstância, mundo, sociedade em que vivemos. Todas as nossas acções são fruto das circunstâncias e das nossas próprias características. É também uma liberdade solidária, porque cada um de nós só é livre com os outros, visto que não vivemos sozinhos no mundo. A liberdade humana (pode chamar-se assim porque é de carácter racional e, logo, exclusiva dos homens) reside em se poder dizer sim ou não, quero ou não quero. Nada nos obriga a ter apenas uma alternativa. O exercício da liberdade exige reflexão e, logo, tempo. Por isso, a reacção é diferente da acção, visto que a primeira é imediata face a um estímulo.
A responsabilidade moral é, por sua vez, uma capacidade, e ao mesmo tempo uma obrigação moral, de assumirmos os nossos actos. É reconhecermo-nos nos nossos actos, compreender que são eles que nos constroem e moldam como pessoas. A responsabilidade implica que sejamos responsáveis antes do acto (ao escolhermos e decidirmos racionalmente, conhecendo os motivos da nossa acção e ao tentar prever as consequências desta), durante o acto (na forma como actuamos) e depois do acto (no assumir das consequências que advêm dos actos praticados).
A liberdade e a responsabilidade estão tão ligadas na medida em que só somos realmente livres de formos responsáveis, e só podemos ser responsáveis se formos livres.
A responsabilidade implica uma escolha e decisão racional, o que vai de encontro à própria definição de liberdade.
Por outro lado, se não agirmos livremente, não podemos assumir totalmente as consequências dos nossos actos, visto que as circunstâncias atenuantes seriam muito fortes. Só o sujeito que é capaz de escolher e decidir racionalmente, com consciência, é capaz de assumir as causas e as consequências da sua acção.
Além disso, a liberdade e a responsabilidade são parâmetros essenciais na construção de um indivíduo como pessoa, visto que é através da liberdade e da responsabilidade que um sujeito é capaz de se tornar efectivamente autónomo.

Patrícia Silva- S. Miguel Açores

sábado, 25 de abril de 2009

Exílio no meu país

Venho dizer-vos que não tenho medo
A verdade é mais forte que as algemas.
Venho dizer-vos que não há degredo
Quando se traz a alma cheia de poemas.

Em qualquer parte estou presente
Todo o navio da canção
E vou direito ao coração de toda a gente.
Venho dizer-vos que não tenho medo

A verdade é mais forte que as algemas.
Venho dizer-vos que não há degredo
Quando se traz a alma cheia de poemas.

Venho dizer-vos que não tenho medo.



Adriano Correia De Oliveira - Exílio Luís Cília E Manuel Alegre

A verticalidade!


A verticalidade é a qualidade da tomada de consciência
em valores morais.
A verticalidade ainda continua a ser a postura da coerência,
da essência e correlacionada com a postura erecta bípede própria do homem que faz da sua vida uma luta permanente para a evolução do seu conhecimento, ficando mais preparado para a nobre tarefa do ser simples e humanista!


quarta-feira, 22 de abril de 2009

Realidade


Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos...
Nada está mudado - ou, pelo menos, não dou por isto
Nesta localidade da cidade ...

Há vinte anos!...
O que eu era então! Ora, era outro...
Há vinte anos, e as casas não sabem de nada...

Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!
Sei eu o que é útil ou inútil?)...
Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)

Tento reconstruir na minha imaginação
Quem eu era e como era quando por aqui passava
Há vinte anos...
Não me lembro, não me posso lembrar.

O outro que aqui passava, então,
Se existisse hoje, talvez se lembrasse...
Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!

Sim, o mistério do tempo.
Sim, o não se saber nada,
Sim, o termos todos nascido a bordo
Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...

Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma,
Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais lembradamente de azul.
Hoje, se calhar, está o quê?


Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
Estou parado físisca e moralmente: não quero imaginar nada...
Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,


Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,
Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
Quando muito, nem penso...
Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.
Olhamos indiferentemente um para o outro.


E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,
E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.
Talvez isso realmente se desse...


Verdadeiramente se desse...
Sim, carnalmente se desse...
Sim, talvez...


Álvaro de Campos

sábado, 4 de abril de 2009

Os povos das Nações Unidas

"Nós, os povos das Nações Unidas, decididos:
a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra que por duas vezes, no espaço de uma vida humana, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade;
a reafirmar a nossa fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, assim como das nações, grandes e pequenas;
a estabelecer as condições necessárias à manutenção da justiça e do respeito das obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional;
a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade;
e para tais fins:
a praticar a tolerância e a viver em paz, uns com os outros, como bons vizinhos;
a unir as nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais;
a garantir, pela aceitação de princípios e a instituição de métodos, que a força armada não será usada, a não ser no interesse comum;
a empregar mecanismos internacionais para promover o progresso económico e social de todos os povos;
Resolvemos conjugar os nossos esforços para a consecução desses objectivos.

Em vista disso, os nossos respectivos governos, por intermédio dos seus representantes reunidos na cidade de São Francisco, depois de exibirem os seus plenos poderes, que foram achados em boa e devida forma, adoptaram a presente Carta das Nações Unidas e estabelecem, por meio dela, uma organização internacional que será conhecida pelo nome de Nações Unidas. "

terça-feira, 17 de março de 2009

O Universo

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos,
distâncias,
buracos,
porosidade etérea.
Espaço vazio,
em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo,
erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

António Gedeão

sábado, 14 de março de 2009

O dia da criação

Macho e fêmea os criou.
Génese, 1, 27I


Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas,
imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez polos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanandoResolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 11 de março de 2009

A noite do meu bem

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem
Hoje eu quero a paz de criança dormindo
E o abandono das flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem
Quero a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! Eu quero o amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! Como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda a ternura que eu quero lhe dar.


Dolores Duran/Elis Regina

segunda-feira, 9 de março de 2009

Hino Nacional

Data: 1890 (com alterações de 1957)Letra: Henrique Lopes de MendonçaMúsica: Alfredo Keil

Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O oceano, a rugir d'amor,
E o teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!
Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Ás armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Data: 1890 (versão original)[1]Letra: Henrique Lopes de MendonçaMúsica: Alfredo Keil

Herois do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memoria,
Oh patria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões marchar, marchar!
Desfralda a invicta bandeira,
À luz viva do teu céo!
Brade a Europa á terra inteira:
Portugal não pereceu!
Beija o teu sólo jucundo
O Oceano, a rugir de amor;
E o teu braço vencedor
Deu mundos novos ao mundo!
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões marchar!
Saudai o sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do resurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injurias da sorte.
Às armas, às armas!Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões marchar!!

domingo, 8 de março de 2009

BOOK TOWNS - COMUNIDADES ONDE QUASE TUDO GIRA À VOLTA DOS LIVROS!


As Book Towns (Comunidades de Livros) são localidades cujas actividades económicas e culturais centram-se quase exclusivamente nos livros. Localizam-se geralmente em pequenas localidades de interesse histórico/patrimonial, cultural ou mesmo paisagístico, concentrando-se nelas um elevado número de livrarias e afins, que comercializam sobretudo livros antigos e/ou em segunda mão.
Hay-on-Wye.
Em 1961 Richard Booth, um graduado de Oxford, teve a ideia de transformar uma histórica povoação rural em gradual declínio, no País de Gales, Hay-on-Wye, numa Comunidade de Livros. Richard Booth comprou algumas casas abandonadas contíguas e aí implantou o maior alfarrábio de todo o Mundo. Apesar da sua localização numa área rural, Hay-on-Wye possui importantes núcleos urbanos relativamente próximos. Ao longo dos anos foi incentivando e auxiliando muitos outros na abertura de novas lojas em Hay-on-Wye. Em jeito de provocação jocosa em 1977 Booth declarou “independente” Hay-on-Wye , publicando as próprias leis “Home Rule for Hay” e (auto)coroou-se Rei dos Livros. Este facto, se na prática não redundou em nenhuma efectiva mudança administrativa, pelo menos teve o condão de projectar Hay-on-Wye pelo mundo fora, nomeadamente nos círculos dos livros e da cultura. Isso revelou-se crucial para o incremento do seu sucesso a um ritmo exponencial, contando hoje com mais de 30 livrarias/alfarrábios de grande dimensão e atingindo um montante anual de turistas superior a meio milhão. Desde 1988 realiza-se anualmente um festival “Hay Literary Festival“, em colaboração com o jornal “The Guardian” que atrai mais de 80 mil pessoas cujo interesse são os livros. Hay-on-Wye afirma-se na actualidade como um burgo já de razoável dimensão e importância Este êxito induziu outras localidades do resto do mundo a reproduzirem o seu modelo. Em especial os anos de 1993 e 1997 revelaram-se muito frutíferos no surgimento de novas Book Towns, respectivamente com cinco (1993) e oito (1997) novas localidades a aderirem a este modelo.
Uma das características destas Booktowns é formarem um catálogo comum das suas obras dos diversos livreiros e alfarrábios de modo a que este assuma maior visibilidade e o acesso às obras por parte dos visitantes/clientes seja facilitado. Com o advento da Internet esse catálogo passou na maior parte dos casos a estar disponível em rede na Web, o que contribuiu para exponenciar de modo significativo o número de clientes.Outra particularidade das Book Towns é o elevado número de evento e iniciativas ligadas ao universo dos livro que são realizadas ao longo do ano, designadamente os seus Festivais de livros
Na Europa têm sido envidados esforços para que cada país possue, pelo menos, uma Book Town. Na actualidade, contabilizam-se nível mundial, cerca de três dezenas de Book Towns, sendo que dezanove delas se localizam na Europa, destacando-se a França que concentra seis delas.As Book Towns representam uma estratégia modelar para o desenvolvimento rural e turístico sustentável, e contribuindo para afixação de pessoas em zonas rurais. A nível dos sectores de turismo e lazer afirma-se como uma formato inovador, granjeando elevado sucesso, e que é cada vez mais reproduzido pelo mundo fora.
Uma parte significativa das Book Towns estão agrupadas na I.O.B. - International Organisation of Book Towns (Organização Internacional de Comunidades de Livros) que congrega no momento 13 povoações. Algumas das Book Towns (ainda) não integram a IOB em face de não cumprirem os rigoroso critérios por ela propostos, ou porque simplesmente não têm essa intenção. A IOB foi fundada como consequência do projecto da União Europeia “EU-project UR 4001 : European Book Town Network

Por fernando vilarinho

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Existes


Aunque tu marcha sea fatigosa
y el cansancio te duela, no claudiques,
piensa en el río que tumbando diques
avanza libre em fuerza candorosa

Si existes (?) qué ha de ser más importante
que vibrar en la asencia de la vida ?
Sé aquél ave que com el ala herida
aún sin volar, caminha hacia adelante

Com paso firme y fiel contigo mismo
no dejes que tu barca pierda el rumbo
ni ante el oleaje feroz del egoismo
Que no se apague entre el pesado mundo
nin se amilane en el oscuro abismo
la llama azul, de tu sentir profundo.


E.J.Malinowski

Barcelona 18 de Fevereiro de 1998

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Receita para matar um homem




Tomam-se umas dezenas de quilos de carne, ossos e sangue, segundo os padrões adequados. Dispõem-se harmoniosamente em cabeça, tronco e membros, recheiam-se de vísceras e de uma rede de veias e nervos, tendo o cuidado de evitar erros de fabrico que dêem pretexto ao aparecimento de fenómenos teratológicos. A cor da pele não tem importância nenhuma.

Ao produto deste trabalho melindroso dá-se o nome de homem. Serve-se quente ou frio, conforme a latitude, a estação do ano, a idade e o temperamento. Quando se pretende lançar protótipos no mercado, infundem-se-lhes algumas qualidades que os vão distinguir do comum: coragem, inteligência, sensibilidade, carácter, amor da justiça, bondade activa, respeito pelo próximo e pelo distante. Os produtos de segunda escolha terão, em maior ou menos grau, um ou outro destes atributos positivos, a par dos opostos, em geral predominantes. Manda a modéstia não considerar viáveis os produtos integralmente positivos ou negativos. De qualquer modo, sabe-se que também nestes casos a cor da pele não tem importância nenhuma.

O homem, entretanto classificado por um rótulo pessoal que o distinguirá dos seus parceiros, saídos como ele da linha de montagem, é posto a viver num edifício a que se dá, por sua vez, o nome de Sociedade. Ocupará um dos andares desse edifício, mas raramente lhe será consentido subir a escada. Descer é permitido e por vezes facilitado. Nos andares do edifício há muitas moradas, designadas umas vezes por camadas sociais, outras vezes por profissões. A circulação faz-se por canais chamados hábito, costume e preconceito. É perigoso andar contra a corrente dos canais, embora certos homens o façam durante toda a sua vida. Esses homens, em cuja massa carnal estão fundidas as qualidades que roçam a perfeição, ou que por essas qualidades optaram deliberadamente, não se distinguem pela cor da pele. Há-os brancos e negros, amarelos e pardos. São poucos os acobreados por se tratar de uma série quase extinta.

O destino final do homem é, como se sabe desde o princípio do mundo, a morte. A morte, no seu momento preciso, é igual para todos. Não o que a precede imediatamente. Pode-se morrer com simplicidade, como quem adormece; pode-se morrer entre as tenazes de uma dessas doenças de que eufemisticamente se diz que “não perdoam”; pode-se morrer sob a tortura, num campo de concentração; pode-se morrer volatilizado no interior de um sol atómico; pode-se morrer ao volante de um Jaguar ou atropelado por ele; pode-se morrer de fome ou de indigestão; pode-se morrer também de um tiro de espingarda, ao fim da tarde, quando ainda hà luz de dia e não se acredita que a morte esteja perto. Mas a cor da pele não tem importância nenhuma.

Martin Luther King era um homem como qualquer de nós. Tinha as virtudes que sabemos, certamente alguns defeitos que não lhe diminuíam as virtudes. Tinha um trabalho a fazer – e fazia-o. Lutava contra as correntes do costume, do hábito e do preconceito, mergulhado nelas até ao pescoço. Até que veio o tiro de espingarda lembrar aos distraídos que nós somos que a cor da pele tem muita importância.

Receita para matar um homem - By José Saramago

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Carta Internacional dos Direitos Humanos


Declaração Universal dos Direitos do Homem *
Adoptada e proclamada pela Assembleia Geral na sua Resolução 217A (III) de 10 de Dezembro de 1948.

Preâmbulo
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;
Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do homem;
Considerando que é essencial a protecção dos direitos do homem através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão;
Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações;
Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declararam resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla;
Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efectivo dos direitos do homem e das liberdades fundamentais;
Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso: Proclama a presente Declaração Universal dos Direitos do Homem como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.
Artigo 1.º
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 2.º
Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.
Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.
Artigo 3.º
Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4.º
Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.
Artigo 5.º
Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
Artigo 6.º
Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento em todos os lugares da sua personalidade jurídica.
Artigo 7.º
Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo 8.º
Toda a pessoa tem direito a recurso efectivo para as jurisdições nacionais competentes contra os actos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela lei.
Artigo 9.º
Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado.
Artigo 10.º
Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.
Artigo 11.º
1. Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas.
2. Ninguém será condenado por acções ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam acto delituoso à face do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o acto delituoso foi cometido.
Artigo 12.º
Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei.
Artigo 13.º
1. Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado.
2. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.
Artigo 14.º
1. Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países.
2. Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente existente por crime de direito comum ou por actividades contrárias aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 15.º
1. Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade.
2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo 16.º
1. A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais.
2. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos.
3. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado.
Artigo 17.º
1. Toda a pessoa, individual ou colectivamente, tem direito à propriedade.
2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.
Artigo 18.º
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
Artigo 19.º
Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.
Artigo 20.º
1. Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo 21.º
1. Toda a pessoa tem o direito de tomar parte na direcção dos negócios públicos do seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicos do seu país.
3. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos; e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto.
Artigo 22.º
Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.
Artigo 23.º
1. Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego.
2. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual.
3. Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de protecção social.
4. Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para a defesa dos seus interesses.
Artigo 24.º
Toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres e, especialmente, a uma limitação razoável da duração do trabalho e a férias periódicas pagas.
Artigo 25.º
1. Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade.
2. A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimónio, gozam da mesma protecção social.
Artigo 26.º
1. Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional deve ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito.
2. A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz.
3. Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos.
Artigo 27.º
1. Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam.
2. Todos têm direito à protecção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.
Artigo 28.º
Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efectivos os direitos e as liberdades enunciados na presente Declaração.
Artigo 29.º
1. O indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade.
2. No exercício destes direitos e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática.
3. Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 30.º
Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de se entregar a alguma actividade ou de praticar algum acto destinado a destruir os direitos e liberdades aqui enunciados.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Rosa Parks


Ficando de pé para a liberdade."A única coisa que me incomodou foi ter esperado tanto tempo para fazer este protesto"A maioria dos historiadores datam o início do movimento moderno dos direitos civis nos Estados Unidos de 1º de dezembro de 1955. Este foi o dia que uma costureira desconhecida de Montgomery, Alabama, recusou-se a levantar para ceder o assento de um ônibus para um passageiro branco. Esta brava mulher, Rosa Parks, foi presa e multada por violar um decreto da cidade, mas seu ato solitário de desafio foi o início de um movimento que acabou com a segregação legal na América, e fez dela uma inspiração para as pessoas amantes da liberdade de muitos lugares no mundo.Rosa Parks nasceu “Rosa Louise McCauley" in Tuskegee – Alabama, filha do carpinteiro, James McCauley e da professora, Leona McCauley. Aos dois anos, ela foi morar no sítio dos avós, em Pine Level, com sua mãe e Sylvester, seu irmão caçula. Aos 11 anos, ela se matriculou na Escola Industrial de Montgomery para garotas, uma escola particular fundada por mulheres nortistas, de tendência liberal. A filosofia da escola de auto-valorização era consistente com a opinião de Leona McCauley em levar vantagem das oportunidades, não importando quão poucas fossem.As oportunidades eram poucas de fato. “Atrás delas” . Em uma entrevista, Rosa Parks disse: Nós não temos quaisquer direitos civis. Era apenas uma questão de sobrevivência, de existência de um dia para o outro. Eu me lembro, quando ia dormir, de uma garotinha ouvindo a “Ku Klux Klan” rondando à noite, e ouvindo um linchamento, e com medo de que a casa viesse abaixo pelo fogo.Na mesma entrevista, ela citou sua longa convivência com o medo como a razão de sua intrepidez em decidir apelar para suas convicções, durante o boicote aos ônibus.“ Eu não tinha qualquer espécie de medo e foi um alívio saber que eu não estava só.Depois de ter trabalhado na Faculdade Estadual de Professores do Alabama, a jovem Rosa e seu esposo Raymond Parks estabeleceram-se em Montgomery. O casal se juntou à agencia local da NAACP e trabalhou sigilosamente por muitos anos para melhorar a sorte de afro-americanos da segregação racial do Sul.“Eu trabalhei em numerosos casos com a NAACP, recorda a sra. Parks, mas não queríamos publicidade. Houve casos de chicoteamento, trabalhos forçados, assassinatos e estupros. Não parecia que tínhamos muito sucesso. Era mais uma questão de tentar desafiar as autoridades para mostrar que não desejávamos mais continuar sendo cidadãos de segunda classe.O incidente do ônibus conduziu à formação da Associação para o Progresso de Montgomery, liderada pelo pastor da Igreja Batista da Avenida Dexter, Dr. Martin Luther King Jr. A associação conclamou um boicote contra a empresa de ônibus da cidade. O boicote durou 382 dias e chamou a atenção mundial para a causa de Rosa Parks e do pastor King . A decisão da Suprema Corte americana derrubou o decreto municipal de Montgomery, sob o qual A Sra. Parks fora multada e declarou ilegal a segregação racial nos transportes públicos.Em 1957, a sra. Parks e seu marido se mudaram para Detroit no Estado de Michigan onde ela serviu no staff do deputado John Conyers. A Convenção Sulista de Lideranças Cristãs estabeleceu o prêmio Anual Rosa Parks de Liberdade em sua honra .Após a morte de seu marido, em 1977, Rosa fundou o Instituto de Auto-Desenvolvimento Rosa e Raymond Parks. Este Instituto patrocina um programa de verão anual para adolescentes chamado “ Veredas da Liberdade”. Os jovens fazem um tour pelo país, em ônibus, sob supervisão de adultos, aprendendo a história do país e dos movimentos dos direitos civis.O Presidente Clinton presenteou Rosa Parks com a Medalha Presidencial da Liberdade em 1996. Em 1999, Ela Recebeu uma Medalha de Ouro do Congresso Americano.Quando perguntada se ela era feliz com a vida de aposentada, Rosa Parks respondeu: Eu fiz o melhor que poderia fazer para encarar a vida com otimismo e esperança e para olhar para frente por dias melhores, mas eu não penso que há tal coisa, como a felicidade completa. Dói em mim que ainda há atividades da Klan e racismo. Eu acho que quando você diz que você é feliz, que você tem tudo que precisa, e tudo que você quer, e não há nada mais para desejar. Eu digo que ainda não alcancei esse estágio.A Sra. Rosa Parks passou seus últimos dias vivendo tranqüilamente em Detroit, onde morreu em 2005, com a idade de 92 anos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A construção da vida

Em tempos idos esta era a imagem da rua principal de Alpiarça, será bom, será sempre bom, os desejos de ter
acção critica, à geração presente, desejando com isso um melhor desempenho para as novas oportunidades que a democracia veio proporcionar, mas na critica deverá estar sempre presente um factor de aceitar participar, nas coisas que no dia a dia, fazem a diferença para melhor, no bem estar, daqueles que nas condições adversas, tudo fizeram para por à nossa disposição, novas ferramentas, que permitem, apesar de toda a contestação legitima, alcançar novas metas, para os vindouros, que eles próprios jamais pensaram poder existir. O homem, tem apesar de tudo, vindo a abrir novos horizontes, de exigência, por vezes pensando que se se esquecer do passado ( do seu passado ) poderá desenvolver em si, uma nova imagem de progressista, de moderno e até de sabedor de coisas.
É pois aí que a coisa falha, a construção permanente do dia a dia que faz futuro, só pode ser dignificante se lhe juntarmos, toda a aprendizagem das coisas que fizeram as alegrias e as tristezas dos nossos progenitores, para as podermos aplicar em prol do bem comum

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Esperança




Discurso de Barack H. Obama, em português, proferido a 20 de Janeiro de 2009.

Caros concidadãos:
Apresento-me hoje aqui sentindo-me humilde perante a tarefa que nos aguarda, grato pela confiança que depositaram em nós, consciente dos sacrifícios por que passaram os nossos antecessores. Agradeço ao Presidente Bush pelos serviços prestados ao nosso país, bem como pela generosidade e cooperação que deu provas durante este período de transição.
Quarenta e quatro presidentes americanos prestaram até hoje o juramento presidencial. As suas palavras foram proferidas em tempos grandiosos de prosperidade e períodos tranquilos de paz. Contudo, houve também ocasiões em que o juramento foi prestado entre nuvens que se avolumavam e tempestades violentas. Nesses momentos, a América prosseguiu o seu caminho não apenas devido à capacidade e visão dos que ocuparam este alto cargo, mas porque nós, o povo, permanecemos fiéis aos ideais dos nossos antepassados e aos nossos documentos fundadores.
Assim foi. E assim será com esta geração de americano.
Que estamos a braços com uma crise já todos compreenderam. O nosso país está em guerra contra uma rede poderosa de violência e ódio. A nossa economia está enfraquecida, uma consequência da ganância e irresponsabilidade por parte de alguns, mas também da nossa incapacidade colectiva de fazer escolhas difíceis e preparar o país para uma nova era.
Perderam-se casas, extinguiram-se empregos, fecharam-se empresas. O nosso sistema de saúde é demasiado oneroso; as nossas escolas reprovam demasiado; e cada dia traz mais provas de que as formas como utilizamos a energia reforçam os nossos adversários e ameaçam o nosso planeta. São estes os indicadores da crise, objecto de dados e números estatísticos. Menos mensurável mas não menos profunda é a diminuição da confiança em todo o país - um receio perturbante de que o declínio da América é inevitável e de que a próxima geração tem de reduzir as suas ambições.
Hoje digo-vos que os desafios que defrontamos são reais. São graves e são muitos. Não terão resposta fácil nem num curto espaço de tempo. Mas que todos fiquem sabendo: terão resposta.
Neste dia, reunimo-nos aqui porque escolhemos a esperança em vez do medo, a unidade de objectivos em vez do conflito e da discórdia.
Neste dia, viemos proclamar o fim de querelas mesquinhas e falsas promessas, das recriminações e dos dogmas gastos que durante demasiado tempo sufocaram a nossa política.
Continuamos a ser uma nação jovem, mas nas palavras das Escrituras, chegou o momento de pôr de parte as infantilidades. Chegou o momento de reiterar a firmeza do nosso espírito; de escolher o melhor da nossa história; de levar por diante essa dádiva preciosa, essa ideia nobre passada de geração em geração: a promessa divina de que todos são iguais, todos são livres e todos merecem a oportunidade de lutar pela sua quota-parte de felicidade.
Ao reafirmar a grandeza da nossa nação, compreendemos que essa grandeza nunca é um dado adquirido. Tem de ser conquistada. A nossa jornada nunca foi feita por atalhos nem se contentou com pouco. Não foi um caminho trilhado por cobardes - por aqueles que preferem o lazer ao trabalho ou que procuram apenas os prazeres da riqueza e da fama. Foi antes trilhado por aqueles que aceitam os riscos, os executores, os que fazem - alguns célebres, mas na maior parte das vezes homens e mulheres que trabalharam na obscuridade - e que nos conduziram por um caminho longo e difícil até à prosperidade e à liberdade.
Por nós, embrulharam os seus poucos haveres e atravessaram os mares à procura de uma vida nova. Por nós, trabalharam duramente em oficinas e colonizaram o Oeste; sofreram chicotadas e lavraram a terra dura.
Por nós lutaram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg; Normandia e Khe Sahn.
Vezes sem conta, estes homens e mulheres lutaram e sacrificaram-se, e trabalharam até que as mãos sangrassem para que nós pudéssemos ter uma vida melhor. Viram a América como sendo maior do que a soma das nossas ambições individuais; maior do que todas as diferenças de nascimento, riqueza ou facção.
É este caminho que prosseguimos hoje. Continuamos a ser a nação mais próspera e mais poderosa da Terra. Os nossos trabalhadores não são menos produtivos do que quando a crise começou. A nossa mente não é menos criativa, os nossos bens e serviços não são menos necessários do que eram na semana passada, no mês passado ou no ano passado. A nossa capacidade não foi diminuída. Mas o nosso tempo de imobilismo, de proteger interesses mesquinhos e de adiar decisões desagradáveis - esse tempo passou definitivamente. A partir de hoje, temos de nos levantar, sacudir a poeira e recomeçar a tarefa de refazer a América.
Porque para qualquer lado que olharmos, há trabalho que tem que ser feito. O estado da nossa economia exige acção, ousada e rápida, e nós agiremos - não apenas para criar novos empregos mas para lançar as novas fundações do crescimento. Construiremos as estradas e as pontes, as redes eléctricas e os circuitos digitais que alimentam o nosso comércio e que nos ligam uns aos outros. Devolveremos à ciência o lugar a que tem direito e utilizaremos com eficácia as maravilhas da tecnologia para aumentar a qualidade dos cuidados de saúde e reduzir os seus custos.
Aproveitaremos o sol, os ventos e a terra para alimentar os nossos carros e fazer funcionar as nossas fábricas. E transformaremos as nossas escolas e universidades para responderem às exigências de uma nova era. Tudo isto sabemos fazer. E tudo isto faremos.
Agora, há quem ponha em dúvida a escala das nossas ambições - quem insinue que o nosso sistema não pode permitir muitos e grandes planos. Têm a memória curta. Porque se esqueceram do que este país já realizou; do que homens e mulheres livres podem alcançar quando conjugam a imaginação e o objectivo comum, a necessidade e a coragem.
O que os descrentes não conseguem compreender é que o chão mudou debaixo dos seus pés - que os velhos argumentos políticos que nos consumiram durante tanto tempo já não se aplicam. A pergunta que hoje fazemos não é se o nosso governo é demasiado grande ou pequeno, mas se funciona - se ajuda as famílias a encontrar empregos e um salário decente, serviços que possam custear, uma reforma digna. Se a resposta for sim, tencionamos seguir em frente. Se a resposta for não, os programas serão terminados. E aqueles de nós que administram os dinheiros públicos serão responsabilizados - para gastarem com sensatez, reformarem velhos hábitos e gerirem os nossos interesses com transparência - porque só então poderemos restaurar a confiança indispensável entre um povo e o seu governo.
Também a pergunta que se coloca não é se o mercado é uma força do bem ou do mal. O seu poder para gerar riqueza e difundir a liberdade não tem paralelo, mas esta crise lembrou-nos que sem um olhar vigilante, o mercado pode descontrolar-se - e que um país não pode prosperar durante muito tempo quando favorece apenas os mais prósperos. O sucesso da nossa economia sempre dependeu não apenas do tamanho do nosso produto interno bruto, mas da abrangência da nossa prosperidade; da nossa capacidade para dar oportunidades a cada alma de boa vontade - não por caridade, mas porque é o caminho mais seguro para o nosso bem comum.
Quanto à nossa defesa comum, rejeitamos como uma falsidade a escolha entre a nossa segurança e os nossos ideais. Os nossos Pais Fundadores, confrontados com perigos que mal podemos imaginar, delinearam uma carta para assegurar o estado de direito e os direitos humanos, uma carta reclamada pelo sangue de gerações. Esses ideais continuam a iluminar o mundo e não desistiremos deles em nome da conveniência. E portanto, a todos os povos e governos que nos estão hoje a ver, desde as grandes capitais à pequena aldeia onde o meu pai nasceu: saibam que a América é amiga de todas as nações e de todos os homens, mulheres e crianças que procuram um futuro de paz e dignidade, e que estamos preparados para liderar uma vez mais.
Recordem que gerações anteriores defrontaram o fascismo e o comunismo não apenas com mísseis e tanques, mas com alianças resolutas e convicções duradouras. Compreenderam que o nosso poder não consegue por si só proteger-nos nem nos confere o direito de fazer o que nos agrada. Pelo contrário, perceberam que o nosso poder aumenta com o seu uso prudente; que a nossa segurança emana da justeza da nossa causa, da força do nosso exemplo, de qualidades como a humildade e a moderação.
Somos os guardiães desse legado. Guiados por estes princípios uma vez mais, podemos estar à altura dessas novas ameaças que exigem um esforço ainda maior - e mesmo maior cooperação e compreensão entre nações. Vamos começar a deixar responsavelmente o Iraque ao seu povo, e a planear uma paz bem merecida no Afeganistão. Com velhos amigos e antigos inimigos, trabalharemos sem descanso para diminuir a ameaça nuclear e repelir o espectro do aquecimento do planeta. Não pediremos desculpa pelo nosso modo de vida nem hesitaremos na sua defesa, e para aqueles que procuram impor os seus objectivos induzindo o terror e massacrando inocentes, dizemos-lhes que o nosso espírito é mais forte e não pode ser dominado; não nos podem vencer pelo cansaço e nós derrotá-los-emos.
Porque sabemos que o nosso património feito de muitos retalhos é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, de judeus e hindus - e de não crentes. Somos formados por todas as línguas e culturas, atraídas de todos os cantos da Terra; e porque experimentámos o travo amargo da guerra civil e da segregação e emergimos desse escuro capítulo mais fortes e mais unidos, só podemos acreditar que os velhos ódios passarão um dia; que as linhas de divisão se dissolverão em breve; que à medida que o mundo se torna mais pequeno, a nossa humanidade comum se revelará; e que a América tem de desempenhar o seu papel de condutora para uma nova era de paz.
Ao mundo muçulmano, procuramos um novo caminho baseado no interesse mútuo e no respeito mútuo. Aos líderes por esse mundo fora que procuram semear o conflito ou lançar as culpas dos males da sua sociedade ao Ocidente: saibam que o vosso povo vos julgará por aquilo que conseguirem construir, não pelo que destruírem. Para aqueles que se agarram ao poder através da corrupção, da falsidade e do silenciamento da oposição, saibam que estão do lado errado da história; mas que nós vos estenderemos a mão se estiverem dispostos a abdicar.
Aos povos das nações pobres, prometemos trabalhar convosco para que as vossas terras floresçam e para que haja água potável; para dar de comer a corpos esfomeados e alimentar espíritos sedentos. E aos países que como o nosso gozam de uma relativa abundância, dizemos que já não podemos suportar a indiferença perante o sofrimento fora das nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos mundiais sem ter em conta o seu efeito. Porque o mundo mudou e nós temos de mudar com ele.
Ao olharmos o caminho que se estende diante de nós, recordamos com humilde gratidão esses bravos americanos que neste mesmo momento patrulham desertos remotos e montanhas distantes. Eles têm algo a dizer-nos hoje, tal como os heróis caídos que jazem em Arlington nos segredam através do tempo.
Prestamos-lhes homenagem não apenas porque são os guardiães da nossa liberdade, mas porque encarnam o espírito do serviço; uma disposição para encontrar significado em algo maior do que eles próprios. E contudo, neste momento - um momento que definirá uma geração - é precisamente este espírito que deverá habitar cada um de nós.
Porque por muito que um governo possa e deva fazer, é afinal da fé e da determinação do povo americano que este país depende. É a generosidade de receber um estranho quando um dique rebenta, o altruísmo de trabalhadores que preferem reduzir o seu horário do que ver um colega perder o seu posto de trabalho, que nos conduzem nas horas mais sombrias. É a coragem do bombeiro ao abrir caminho por uma escada cheia de fumo, mas também a vontade de um pai para criar um filho, que finalmente decide o nosso destino.
Os nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos de que dispomos para os enfrentar podem ser novos. Mas os valores dos quais depende o nosso sucesso - trabalho árduo e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo - são velhos. São verdadeiros. Foram a força tranquila do progresso através da nossa história. O que se exige é então um regresso a essas verdades. O que se exige de nós é uma nova era de responsabilidade - um reconhecimento, por parte de todos os americanos, que temos deveres com nós próprios, com o nosso país e com o mundo; deveres que não aceitamos relutantemente mas que cumprimos com alegria, firmes no conhecimento de que não há nada tão compensador para o espírito, tão definidor do nosso carácter, como nos entregarmos inteiramente a uma tarefa difícil.

É este o preço e a promessa da cidadania.
É esta a fonte da nossa confiança - o conhecimento de que Deus nos chama para darmos forma a um destino incerto.
Este é o significado da nossa liberdade e da nossa fé - a razão por que homens, mulheres e crianças de todas as raças e religiões se podem juntar nesta celebração em volta desta magnífica alameda, e por que um homem cujo pai há menos de 60 anos poderia não ter sido servido num restaurante local pode agora estar aqui diante de vós a prestar o juramento mais sagrado.
Portanto, marquemos este dia com a recordação do que somos e do longo caminho que percorremos. No ano do nascimento da América, no mês mais frio, um pequeno grupo de patriotas juntou-se à volta de fogueiras agonizantes nas margens de um rio gelado. A capital fora abandonada. O inimigo avançava. A neve estava tingida de sangue. Num momento em que o resultado da nossa revolução estava mais em dúvida, o pai da nossa pátria ordenou que estas palavras fossem lidas ao povo:
"Que fique dito para o mundo futuro (...) que no Inverno mais profundo, quando nada senão a esperança e a virtude conseguiam sobreviver (...) que a cidade e o país, alarmados por um perigo comum, acorreram para o enfrentar".
América. Diante dos nossos perigos comuns, neste Inverno de provação, lembremo-nos destas palavras intemporais. Com esperança e virtude, vamos desafiar uma vez mais as correntes geladas e suportar as tempestades que vierem. Que possa ser dito pelos filhos dos nossos filhos que quando fomos postos à prova, nos recusámos a permitir que esta jornada terminasse, que não virámos as costas nem vacilámos; e com os olhos fixos no horizonte e com a graça de Deus, levámos por diante essa grande dádiva da liberdade e a entregámos em segurança às futuras gerações.

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Juramento de Tomada de Posse
O Juramento de Tomada de Posse Presidencial está descrito na Constituição dos Estados Unidos da América:
"Eu juro (ou declaro) solenemente que executarei fielmente o cargo de Presidente dos Estados Unidos e que preservarei, protegerei e defenderei, o melhor que puder e souber, a Constituição dos Estados Unidos da América."
A frase "Assim Deus me ajude" não consta da Constituição, mas todos os Presidentes eleitos a disseram no final do juramento, seguindo assim os passos de George Washington.
Franklin Pierce e Herbert Hoover foram os únicos Presidentes eleitos que usaram "declarar" em vez de "jurar" quando proferiram o texto da tomada de posse.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Eu Vim de Longe

Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de maio começou
Eu olhei para ti
Então entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou
Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha na outra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
Pra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar
E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos cantei
Foram feitos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão
Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei pra ti
E então entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou
Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi pra esta força que apontou
E então olhei à minha volta
Vi tanta mentira andar à solta
Que me perguntei
Se os hinos que cantei
Eram só promessas e ilusões
Que nunca passaram de canções
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar
Quando eu finalmente eu quis saber
Se ainda vale a pena tanto crer
Eu olhei para ti
Então eu entendi
É um lindo sonho para viver
Quando toda a gente assim quiser
Tenho esta viola numa mão
Tenho a minha vida noutra mão
Tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou p´ra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar
E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar a solta
Que já não hesito
Os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer
Eu vim de longeDe muito longe
O que eu andei prá aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

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Vim de Longe
Composição: José Mário Branco

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Queixa das Almas Jovens Censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte

Composição: Natália Correia

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Cambalache


Cambalache
Que el mundo fue y será una porquería,
ya lo sé;
en el quinientos seisy en el dos mil también;
que siempre ha habido chorros,maquiavelos y estafaos,contentos y amargaos,
valores y dubles,
pero que el siglo veinte es un desplieguede malda’ insolenteya no hay quien lo niegue;
vivimos revolcaos en un merenguey en un mismo lodo todos manoseaos.
Hoy resulta que es lo mismoser derecho que traidor
,ignorante, sabio, chorro,generoso, estafador.
Todo es igual;
nada es mejor;
lo mismo un burro que un gran profesor.
No hay aplazaos, ni escalafón;
los inmorales nos han igualao.
Si uno vive en la imposturay otro roba en su ambición,
da lo mismo que si es cura,
colchonero, rey de bastos,
caradura o polizón.
Que falta de respeto,
que atropello a la razón;
cualquiera es un señor,
cualquiera es un ladrón.
Mezclaos con Stavisky,van Don Bosco y la Mignón,
don Chicho y Napoleón,Carnera y San Martín.
Igual que en la vidriera irrespetuosade los cambalachesse
ha mezclao la vida,
y herida por un sable sin remachesves llorar la Biblia contra un calefón.
Siglo veinte, cambalacheproblematico y febril;
el que no llora, no mama,
y el que no afana es un gil.
Dale nomás, dale que vá,
que allá en el horno nos vamo a encontrar.
No pienses mas, echate a un lao,
que a nadie importa si naciste honrao.
Que es lo mismo el que laburanoche y día como un buey,
que el que vive de los otros,
que el que mata o el que curao esta fuera de la ley.
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quarta-feira, 16 de julho de 2008

21 a 26 de Junho 2008 ICAN


Editoras representadas no ICAN
--/--
BARKUHUIS PUBLISHING
EGBERT FORSTEN PUBLISHING
EDIÇÕES COSMOS
CAMBRIDGE UNIVERSITY PRESS
YALE UNIVERSITY PRESS
UNIVERSITY CALIFORNIA PRESS
--/--
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
21 DE Junho a 26 de Junho 2008

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A nossa Vida! (?)


Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontra-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas a dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei muito
que é com certo espanto que no espelho de manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser a solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
....
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
e penso que se nunca a bem te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
...
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
...
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
...
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão da escoridão e luz
...
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e me não vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido


in Rui Belo

sábado, 14 de junho de 2008

A ABORDAGEM DOS MEDOS E DA RUPTURA

MULHER DESAPARECIDA A SUL, de Modesto Navarro Que nos amamos pouco e mal, todos o sabemos. Por vezes, amargamente o sabemos. Garrett avisou-nos, mas de pouco nos serviu. Continuamos, sobranceiros e diligentes, a ignorarmo-nos mutuamente. Conseguimos amar o que nos chega de fora, a assimilar acrítica e devotadamente, todos os subprodutos que os impérios mediáticos promovem, com mão operativa e marketing agressivo, levando-nos ao consumo desbragado e irracional. Assim, nesta deriva consumista, nos fomos ao longo dos anos (com claros e graves sinais, a partir dos anos 1980) aculturando e transformando numa massa acrítica, consumidores passivos e sentados nas ameias do sofá de todo o género de produtos culturais estranhos, promovidos em caixa alta e primeiras páginas pelos media de serviço. Esquecemos, ou levaram-nos a esquecer, que num mundo globalizado como este em que vivemos, os povos que não assumem a sua identidade cultural, que não respeitam e promovem os seus valores patrimoniais, tenderá a desaparecer no confronto cultural com outros povos. E um povo, para o ser enquanto identidade colectiva, precisa de referentes, de sinais, de raízes. Só nesse confronto se afirmará singular, só impondo a diferença à diversidade global, a nossa identidade cultural nos poderemos afirmar como povo autónomo livre e respeitado no confronto com outras culturas que de há muito perceberam que a verdadeira marca, que a perenidade da sua passagem pelo espaço que nos é comum, passa indubitavelmente pela capacidade e génio criador dos seus povos. Tudo o resto é volátil e de passagem. António Damásio, afirmou, numa conferência realizada na Gulbenkian, que não cabe à matemática moldar o homem ou o seu carácter de cidadão: essa é tarefa primordial e exclusiva da cultura. Só se aprende a andar, andando, escreveu o poeta espanhol António Machado. Os nossos passos, enquanto povo, passam impressivamente pela nossa história política, cultural e artística. Sem esses referentes memoriais, criativos e históricos, perdemos identidade, fundimo-nos sem honra nem glória (e sem previsíveis vantagens económicas) no espaço global das mediocridades normalizadas. Um povo que não ama, não protege, ou não promove a sua Literatura (ou a Música, a Pintura, a Dança, o Património, a História) se não está morto está, certamente, moribundo. Sábio aviso de mestre Almeida Garrett. A Literatura, aquela que ficcionalmente nos conta (e há, por muito que a tentem apagar, uma história recente que a ficção portuguesa precisa de contar de forma escorreita e asseada, para que se não dilua no cortejo infamante de todos os revisionismos oportunistas que por aí pululam, tendentes a criar o caldo de cultura necessário à desforra que almejam), precisa de se afirmar, de se mostrar, de se impor. Depois dos desvarios que uma escrita soporífera inculcou no nosso tecido editorial (território escasso, como sabemos, onde a iliteracia campeia ufana, sector vivendo à míngua e em permanente crise e por isso permeável a todas as golpadas e aos mais inconfessáveis desígnios), uma escrita mais séria, mais reflexiva e esteticamente sedutora, começa a emergir e a fixar públicos. Neste panorama promissor, é justo salientar o nome de José Casanova que à ficção portuguesa trouxe, em três livros incontornáveis, a memória do país que fomos entre os anos 30 e meados dos anos 70 do século 20, mas igualmente José Saramago com esse brilhante romance que é Levantado do Chão., sinfonia maior da nossa escrita contemporânea. Os anos que se seguiram à revolução de Abril de 1974, trouxeram, para além da liberdade democrática, de uma reformulação nas relações de trabalho, das melhorias sensíveis das condições económicas e do geral acesso à cultura e ao ensino, transformações profundas na organização estrutural das relações entre géneros: a mulher emancipava-se, competia com o homem no mundo do trabalho, começava a frequentar, e a afirmar-se, em número cada vez mais crescente, no território académico. Saíamos de uma sociedade patriarcal, opressora, fortemente dominada pelo homem nos aspectos mais elementares da vida quotidiana, para a súbita descoberta do outro, da identidade e da singularidade do outro – o homem descobria, com alguma perplexidade inicial, que a sua companheira não era apenas a fada do lar que décadas de obscurantismo salazarista haviam formatado nos imaginários comportamentais dos portugueses, mas era um ser autónomo, criativo, exigente e insubmisso. A esposa da Carta Guia de Casados de D. Francisco Manuel de Melo, cujos contornos essenciais permaneceram imutáveis na sociedade portuguesa desde 1650 (data da publicação do texto de Francisco Manuel de Melo), até aos anos 1960, (1) desmoronara-se no tempo veloz de uma (1) – Nos anos 1940, sob a égide dos conceitos de Família de Salazar, o proto-fascista Luís Carreira, publica o livro Namoro e Casamento, autentico Guia de Casados do Estado Novo. década. Entre nós, e por força de uma opressão vigilante, atenta aos mais ínfimos sinais dos auto denominados bons costumes e fidelidade conjugais, fidelidade que os decantados “bons costumes” apenas impunham à metade mais frágil, as primeiras manifestações públicas do feminismo iniciam-se, de forma corajosa, com Maria Lamas nas páginas da revista Modas e Bordados e nesse estudo fundamental que é Mulheres do Meu País, alcançando em 1971, com a publicação das Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, uma maior visibilidade, graças ao mediatismo que as suas autoras conseguiram junto da comunicação social – aproveitando, claro, a fugaz abertura da primavera marcelista. Há escritores que transportam aos ombros – muito para além da argamassa das memórias da vida e do vivido com que estruturam os textos – o peso do social que transparece acutilante na sua escrita. Sartre chamou-lhe engagement, chamar-lhe-ei, para uma mais fácil compreensão, uma escrita comprometida com a história e com o pulsar do seu tempo: uma literatura sem embustes. Mesmo quando o autor, pelo rigor e mestria do seu laboratório literário, consegue elidir essa particularidade, ela está impressa no texto, é indissociável do estilo, do diegético que atravessa a obra. Encontramos este comportamento narrativo nas obras mais recentes de Urbano Tavares Rodrigues, mesmo quando o autor, aparentemente, só nos quer falar das degenerescências comportamentais que atravessam e inquinam a vida nas sociedades contemporâneas: só que essa degenerescência não acontece por acaso, não surge do nada – há razões sociais e políticas que contaminam os comportamentos, que inoculam os vazios, a solidão, o desencanto, a desesperança, a usura: uma espécie de húmus que subterraneamente nos vai tomando por dentro e invade o espaço colectivo. O comprometimento social, esse crítico e arguto olhar sobre o real, não é descoberta dos autores portugueses contemporâneos. Já Fernando Pessoa, pegando pelo lado menos sórdido do modernismo definido por Marinnetti, anunciava que as grandes depressões sociais e políticas são terreno fértil para o aparecimento da grande literatura e que esta, pela sua genialidade poderá influir nos destinos da humanidade. Aparte a sebastianica assumpção pessoana, o certo é que a literatura que denunciou e tomou partido no coro das denúncias dos atropelos dos poderes em relação aos direitos fundamentais da condição humana, foi determinante para influenciar vastas camadas da opinião pública que, a partir de alguns textos fundamentais, começou a olhar criticamente a realidade circundante e a indignar-se de maneira mais consciente e activa. Aconteceu com John Steinbeck, ao inscrever a dor e as feridas que a grande depressão imprimira no tecido social americano, também com John dos Passos, denunciando uma sociedade estruturalmente corrupta e o capitalismo como um sistema decadente arvorado em civilização, na generosidade militante e combativa de Hemingway, Zola, Gorky, Calvino, Morávia, Brecht, os portugueses que protagonizaram a primeira incursão neo-realista, Soeiro Pereira Gomes, Ferreira de Castro, Alves Redol, Manuel da Fonseca. E a geração que, embora solidária com algumas questões suscitadas pelo neo-realismo, se deixaram seduzir pelos movimentos estético-literários emergentes no mundo anglo-saxónico e, sobretudo, em França: José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Augusto Abelaira, José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues e, já nos anos setenta do século XX, a geração que foi à guerra e sofridamente no-la revelou: Modesto Navarro, Lobo Antunes, João de Melo, Fernando Assis Pacheco, Manuel Alegre, Álamo Oliveira e eu próprio. A esta geração que foi à guerra e voltou, depois do exercício catártico de a dizer (e não será estulticia afirmar que essa literatura é já hoje um sub-género literário que cada vez mais se afirma pujante na história recente da nossa ficção, com novos e interessantes títulos recentemente publicados, entre os quais salientamos Diário da Guiné 1968/69, de Mário Beja Santos) ficou-lhe o espaço de uma revolução para reflectir e sobre ela efabular. Poucas gerações como a nossa se poderão regozijar de terem atravessado tão prodigioso período histórico, tendo vivido e sofrido tão extraordinárias e díspares experiências, que vão da mais ultramontana repressão, à censura bacoca, ao sórdido dos anos da guerra, até aos dias absolutos e solares do nosso júbilo libertário. Um manancial único que urge aproveitar e reinventar criativamente. O nosso mais recente cinema começa a reflectir esta realidade que a literatura, pelos constrangimentos conhecidos, tarda em assumir. Modesto Navarro, desde esse cáustico romance do começo do nosso desencanto que é A Meio da Ponte, romance onde o autor assume o retrato triste, por vezes nostálgico, de uma geração que tentou mudar os rumos da história e verifica, angustiada e incrédula, olhando ao espelho o esbranquiçar da gaforina, ou a sua total ausência, que nem a si, ou aos próximos, conseguiu mudar substantivamente. Ora, a angústia que atravessa A Meio da Ponte, muda-se com armas, bagagem e refinamento de processos, para esta nova novela do autor de O Coração da Terra. Modesto Navarro consegue na novela Mulher Desaparecida a Sul, um ritmo consentâneo com o objecto narrado, um eixo de similaridades até então ausentes, ou só a espaços verificáveis na sua escrita. Há uma suspensão nos modos desta fala, uma interioridade sensível, a lenta descida ao âmago das nossas indescobertas feridas interiores. Nesta novela é o homem que arrasta a suprema humilhação de se saber rejeitado, o homem a quem a ruptura fere como um ultraje insuportável, até à violência que o ciúme incendeia. João é o retrato de um tempo insubmisso, vítima, se quisermos, da volatilidade das relações entre homem e mulher, do efémero da paixão, a que a liberdade veio, de forma crua e violenta, tirar a máscara hipócrita que as pretendia eternizar no limbo da paciência, por que Deus é misericordioso e compensa com juros, galáxias celestiais e brancas asas do paraíso quem na terra sofra infernos e ultrajes. Estamos, neste terreno dos afectos, cada vez mais sós e responsáveis únicos pelos nossos actos: daí a angústia sem remissão. João permanece apaixonado por Elisa mas ela já não o ama, precisa de espaço, diz-lhe, um outro espaço onde possa finalmente afirmar-se em plenitude, ser plenamente – estranha e insuportável rebeldia, vinda de uma mulher ainda ontem submissa, ainda ontem partilhando sonhos, dificuldades, um filho, a vida – mas o futuro é o tempo que passa, é o momento único e irrepetível que vivemos, e o amor só é eterno enquanto dura, como escreveu o Vinícius que do amor e da sua efemeridade sabia tanto como de um bom uísque de malte. Maria Lamas, em Mulheres do Meu País, já decifrara esse purgatório das frustrações ocultadas, que Modesto Navarro inscreve neste livro. “Ao debruçar-se sobre a vida doméstica (“oásis onde – segundo Salazar – os filhos de Portugal são formados”), Maria Lamas encontra não o santo equilíbrio de que os salazaristas e outros conservadores faziam o panegírico, mas um sistema fechado sobre si mesmo que tendia à amargura e ao inevitável desgaste dos mais fortes afectos”. (1) É deste purgatório tolhedor que Elisa tenta, em ruptura, escapar. (1) – Maria João Martins – O Paraíso Triste – Pág. 119 - Ed. Vega O triângulo amoroso completa-se com Eduardo, que ama Elisa e a quem ela se entrega mais por necessidade de fuga a um quotidiano sufocante do que por verdadeiramente o amar. Elisa é uma mulher em busca do seu espaço, da sua identidade, do seu lugar: essa busca é obsessiva e não deixa lugar no peito para as amarras da paixão. Por isso, sabedora dessa impossibilidade, Elisa desaparece algures numa praia do sul, ou morreu de intoxicação alimentar – suspensão e dúvida, o leitor que conclua que para isso foi convocado e se fez cúmplice. Com Eduardo regressamos ao imaginário mais impressivo de Modesto Navarro, às suas memórias da terra transmontana, à vila, à oficina, ao espaço dos afectos primordiais. E é no contar as estórias desse espaço, no sensível diegético que as enforma, que esta fala se alarga e ganha asas, é mordente e tocante de clamor e êxtase, como acontece em algumas das melhores páginas de O Coração da Terra. Modesto, para nosso contentamento, traz o coração atravessado dessas memórias e no-las vai vertendo, com parcimónia que roça a timidez, ao longo das páginas da sua já considerável obra. Com esta novela, o autor de Seis Mulheres na Madrugada, regressa à análise das relações dos casais no Portugal pós 25 de Abril de 1974. Modesto Navarro, serve-se de uma estrutura narrativa próxima do policial (género em que o autor se movimenta dextro), para nos falar das relações falhadas (tema já abordado em A Insubmissa) da angústia e dos medos que perpassam este nosso tempo e tocam uma geração que se sente à deriva e desapossada de referentes identitários num país que, depois da esperança e da solidariedade libertária, enfrenta desarmada e confusa a cupidez neo-liberal. Mulher Desaparecida a Sul, é uma novela construída sobre os estilhaços do desencanto e dele o autor, com um despojamento narrativo exemplar, na forma como as elipses se estruturam (há algo de faulkeleriano neste modo de contar) traça um impressivo, nostálgico e arrebatado retrato. Mulher Desaparecida a Sul é, portanto, uma novela vigorosa e sensível, abordando os nossos medos face a um mundo que desaba e do qual não sabemos prever o futuro que virá. A vida e seus inumeráveis segredos. Brilhante começo de uma nova colecção da Cosmos, que se assume como biblioteca onde os autores portugueses de referência poderão encontrar espaço para a publicação de textos que expressem as profundas inquietações deste nosso tempo.
in; Domingos Lobo

terça-feira, 10 de junho de 2008

São os loucos de Lisboa


Parava no café quando eu lá estava
Na voz tinha o talento dos pedintes
Entre um cigarro e outro lá cravava a bica, ao melhor dos seus ouvintes
As mãos e o olhar da mesma cor
Cinzenta como a roupa que trazia
Num gesto que podia ser de amor
Sorria, e ao partir agradecia
São os loucos de Lisboa
Que nos fazem duvidar
A Terra gira ao contrário
E os rios nascem no mar
Um dia numa sala do quarteto
Passou um filme lá do hospital
Onde o esquecido filmado no gueto
Entrava como artista principa
lCompramos a entrada p'ra sessão
Pra ver tal personagem no écran
O rosto maltratado era a razão
De ele não aparecer pela manhã
Mudamos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia
Deixamos de tributo a quem lá pára
Um louco a fazer-lhe companhia
E sempre a mesma posse o mesmo olhar
De quem não mede os dias que vagueam
Sentado la continua a cravar
Beijinhos as meninas que passeiam.