Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte
Composição: Natália Correia
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Cambalache

Cambalache
Que el mundo fue y será una porquería,
Que el mundo fue y será una porquería,
ya lo sé;
en el quinientos seisy en el dos mil también;
que siempre ha habido chorros,maquiavelos y estafaos,contentos y amargaos,
valores y dubles,
pero que el siglo veinte es un desplieguede malda’ insolenteya no hay quien lo niegue;
vivimos revolcaos en un merenguey en un mismo lodo todos manoseaos.
Hoy resulta que es lo mismoser derecho que traidor
Hoy resulta que es lo mismoser derecho que traidor
,ignorante, sabio, chorro,generoso, estafador.
Todo es igual;
nada es mejor;
lo mismo un burro que un gran profesor.
No hay aplazaos, ni escalafón;
los inmorales nos han igualao.
Si uno vive en la imposturay otro roba en su ambición,
da lo mismo que si es cura,
colchonero, rey de bastos,
caradura o polizón.
Que falta de respeto,
Que falta de respeto,
que atropello a la razón;
cualquiera es un señor,
cualquiera es un ladrón.
Mezclaos con Stavisky,van Don Bosco y la Mignón,
don Chicho y Napoleón,Carnera y San Martín.
Igual que en la vidriera irrespetuosade los cambalachesse
ha mezclao la vida,
y herida por un sable sin remachesves llorar la Biblia contra un calefón.
Siglo veinte, cambalacheproblematico y febril;
el que no llora, no mama,
y el que no afana es un gil.
Dale nomás, dale que vá,
que allá en el horno nos vamo a encontrar.
No pienses mas, echate a un lao,
que a nadie importa si naciste honrao.
Que es lo mismo el que laburanoche y día como un buey,
que el que vive de los otros,
que el que mata o el que curao esta fuera de la ley.
---
quarta-feira, 16 de julho de 2008
21 a 26 de Junho 2008 ICAN
segunda-feira, 30 de junho de 2008
A nossa Vida! (?)
Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontra-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas a dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei muito
que é com certo espanto que no espelho de manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser a solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
....
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
e penso que se nunca a bem te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
...
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
...
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
...
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão da escoridão e luz
...
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e me não vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido
in Rui Belo
sábado, 14 de junho de 2008
A ABORDAGEM DOS MEDOS E DA RUPTURA
MULHER DESAPARECIDA A SUL, de Modesto Navarro Que nos amamos pouco e mal, todos o sabemos. Por vezes, amargamente o sabemos. Garrett avisou-nos, mas de pouco nos serviu. Continuamos, sobranceiros e diligentes, a ignorarmo-nos mutuamente. Conseguimos amar o que nos chega de fora, a assimilar acrítica e devotadamente, todos os subprodutos que os impérios mediáticos promovem, com mão operativa e marketing agressivo, levando-nos ao consumo desbragado e irracional. Assim, nesta deriva consumista, nos fomos ao longo dos anos (com claros e graves sinais, a partir dos anos 1980) aculturando e transformando numa massa acrítica, consumidores passivos e sentados nas ameias do sofá de todo o género de produtos culturais estranhos, promovidos em caixa alta e primeiras páginas pelos media de serviço. Esquecemos, ou levaram-nos a esquecer, que num mundo globalizado como este em que vivemos, os povos que não assumem a sua identidade cultural, que não respeitam e promovem os seus valores patrimoniais, tenderá a desaparecer no confronto cultural com outros povos. E um povo, para o ser enquanto identidade colectiva, precisa de referentes, de sinais, de raízes. Só nesse confronto se afirmará singular, só impondo a diferença à diversidade global, a nossa identidade cultural nos poderemos afirmar como povo autónomo livre e respeitado no confronto com outras culturas que de há muito perceberam que a verdadeira marca, que a perenidade da sua passagem pelo espaço que nos é comum, passa indubitavelmente pela capacidade e génio criador dos seus povos. Tudo o resto é volátil e de passagem. António Damásio, afirmou, numa conferência realizada na Gulbenkian, que não cabe à matemática moldar o homem ou o seu carácter de cidadão: essa é tarefa primordial e exclusiva da cultura. Só se aprende a andar, andando, escreveu o poeta espanhol António Machado. Os nossos passos, enquanto povo, passam impressivamente pela nossa história política, cultural e artística. Sem esses referentes memoriais, criativos e históricos, perdemos identidade, fundimo-nos sem honra nem glória (e sem previsíveis vantagens económicas) no espaço global das mediocridades normalizadas. Um povo que não ama, não protege, ou não promove a sua Literatura (ou a Música, a Pintura, a Dança, o Património, a História) se não está morto está, certamente, moribundo. Sábio aviso de mestre Almeida Garrett. A Literatura, aquela que ficcionalmente nos conta (e há, por muito que a tentem apagar, uma história recente que a ficção portuguesa precisa de contar de forma escorreita e asseada, para que se não dilua no cortejo infamante de todos os revisionismos oportunistas que por aí pululam, tendentes a criar o caldo de cultura necessário à desforra que almejam), precisa de se afirmar, de se mostrar, de se impor. Depois dos desvarios que uma escrita soporífera inculcou no nosso tecido editorial (território escasso, como sabemos, onde a iliteracia campeia ufana, sector vivendo à míngua e em permanente crise e por isso permeável a todas as golpadas e aos mais inconfessáveis desígnios), uma escrita mais séria, mais reflexiva e esteticamente sedutora, começa a emergir e a fixar públicos. Neste panorama promissor, é justo salientar o nome de José Casanova que à ficção portuguesa trouxe, em três livros incontornáveis, a memória do país que fomos entre os anos 30 e meados dos anos 70 do século 20, mas igualmente José Saramago com esse brilhante romance que é Levantado do Chão., sinfonia maior da nossa escrita contemporânea. Os anos que se seguiram à revolução de Abril de 1974, trouxeram, para além da liberdade democrática, de uma reformulação nas relações de trabalho, das melhorias sensíveis das condições económicas e do geral acesso à cultura e ao ensino, transformações profundas na organização estrutural das relações entre géneros: a mulher emancipava-se, competia com o homem no mundo do trabalho, começava a frequentar, e a afirmar-se, em número cada vez mais crescente, no território académico. Saíamos de uma sociedade patriarcal, opressora, fortemente dominada pelo homem nos aspectos mais elementares da vida quotidiana, para a súbita descoberta do outro, da identidade e da singularidade do outro – o homem descobria, com alguma perplexidade inicial, que a sua companheira não era apenas a fada do lar que décadas de obscurantismo salazarista haviam formatado nos imaginários comportamentais dos portugueses, mas era um ser autónomo, criativo, exigente e insubmisso. A esposa da Carta Guia de Casados de D. Francisco Manuel de Melo, cujos contornos essenciais permaneceram imutáveis na sociedade portuguesa desde 1650 (data da publicação do texto de Francisco Manuel de Melo), até aos anos 1960, (1) desmoronara-se no tempo veloz de uma (1) – Nos anos 1940, sob a égide dos conceitos de Família de Salazar, o proto-fascista Luís Carreira, publica o livro Namoro e Casamento, autentico Guia de Casados do Estado Novo. década. Entre nós, e por força de uma opressão vigilante, atenta aos mais ínfimos sinais dos auto denominados bons costumes e fidelidade conjugais, fidelidade que os decantados “bons costumes” apenas impunham à metade mais frágil, as primeiras manifestações públicas do feminismo iniciam-se, de forma corajosa, com Maria Lamas nas páginas da revista Modas e Bordados e nesse estudo fundamental que é Mulheres do Meu País, alcançando em 1971, com a publicação das Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, uma maior visibilidade, graças ao mediatismo que as suas autoras conseguiram junto da comunicação social – aproveitando, claro, a fugaz abertura da primavera marcelista. Há escritores que transportam aos ombros – muito para além da argamassa das memórias da vida e do vivido com que estruturam os textos – o peso do social que transparece acutilante na sua escrita. Sartre chamou-lhe engagement, chamar-lhe-ei, para uma mais fácil compreensão, uma escrita comprometida com a história e com o pulsar do seu tempo: uma literatura sem embustes. Mesmo quando o autor, pelo rigor e mestria do seu laboratório literário, consegue elidir essa particularidade, ela está impressa no texto, é indissociável do estilo, do diegético que atravessa a obra. Encontramos este comportamento narrativo nas obras mais recentes de Urbano Tavares Rodrigues, mesmo quando o autor, aparentemente, só nos quer falar das degenerescências comportamentais que atravessam e inquinam a vida nas sociedades contemporâneas: só que essa degenerescência não acontece por acaso, não surge do nada – há razões sociais e políticas que contaminam os comportamentos, que inoculam os vazios, a solidão, o desencanto, a desesperança, a usura: uma espécie de húmus que subterraneamente nos vai tomando por dentro e invade o espaço colectivo. O comprometimento social, esse crítico e arguto olhar sobre o real, não é descoberta dos autores portugueses contemporâneos. Já Fernando Pessoa, pegando pelo lado menos sórdido do modernismo definido por Marinnetti, anunciava que as grandes depressões sociais e políticas são terreno fértil para o aparecimento da grande literatura e que esta, pela sua genialidade poderá influir nos destinos da humanidade. Aparte a sebastianica assumpção pessoana, o certo é que a literatura que denunciou e tomou partido no coro das denúncias dos atropelos dos poderes em relação aos direitos fundamentais da condição humana, foi determinante para influenciar vastas camadas da opinião pública que, a partir de alguns textos fundamentais, começou a olhar criticamente a realidade circundante e a indignar-se de maneira mais consciente e activa. Aconteceu com John Steinbeck, ao inscrever a dor e as feridas que a grande depressão imprimira no tecido social americano, também com John dos Passos, denunciando uma sociedade estruturalmente corrupta e o capitalismo como um sistema decadente arvorado em civilização, na generosidade militante e combativa de Hemingway, Zola, Gorky, Calvino, Morávia, Brecht, os portugueses que protagonizaram a primeira incursão neo-realista, Soeiro Pereira Gomes, Ferreira de Castro, Alves Redol, Manuel da Fonseca. E a geração que, embora solidária com algumas questões suscitadas pelo neo-realismo, se deixaram seduzir pelos movimentos estético-literários emergentes no mundo anglo-saxónico e, sobretudo, em França: José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Augusto Abelaira, José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues e, já nos anos setenta do século XX, a geração que foi à guerra e sofridamente no-la revelou: Modesto Navarro, Lobo Antunes, João de Melo, Fernando Assis Pacheco, Manuel Alegre, Álamo Oliveira e eu próprio. A esta geração que foi à guerra e voltou, depois do exercício catártico de a dizer (e não será estulticia afirmar que essa literatura é já hoje um sub-género literário que cada vez mais se afirma pujante na história recente da nossa ficção, com novos e interessantes títulos recentemente publicados, entre os quais salientamos Diário da Guiné 1968/69, de Mário Beja Santos) ficou-lhe o espaço de uma revolução para reflectir e sobre ela efabular. Poucas gerações como a nossa se poderão regozijar de terem atravessado tão prodigioso período histórico, tendo vivido e sofrido tão extraordinárias e díspares experiências, que vão da mais ultramontana repressão, à censura bacoca, ao sórdido dos anos da guerra, até aos dias absolutos e solares do nosso júbilo libertário. Um manancial único que urge aproveitar e reinventar criativamente. O nosso mais recente cinema começa a reflectir esta realidade que a literatura, pelos constrangimentos conhecidos, tarda em assumir. Modesto Navarro, desde esse cáustico romance do começo do nosso desencanto que é A Meio da Ponte, romance onde o autor assume o retrato triste, por vezes nostálgico, de uma geração que tentou mudar os rumos da história e verifica, angustiada e incrédula, olhando ao espelho o esbranquiçar da gaforina, ou a sua total ausência, que nem a si, ou aos próximos, conseguiu mudar substantivamente. Ora, a angústia que atravessa A Meio da Ponte, muda-se com armas, bagagem e refinamento de processos, para esta nova novela do autor de O Coração da Terra. Modesto Navarro consegue na novela Mulher Desaparecida a Sul, um ritmo consentâneo com o objecto narrado, um eixo de similaridades até então ausentes, ou só a espaços verificáveis na sua escrita. Há uma suspensão nos modos desta fala, uma interioridade sensível, a lenta descida ao âmago das nossas indescobertas feridas interiores. Nesta novela é o homem que arrasta a suprema humilhação de se saber rejeitado, o homem a quem a ruptura fere como um ultraje insuportável, até à violência que o ciúme incendeia. João é o retrato de um tempo insubmisso, vítima, se quisermos, da volatilidade das relações entre homem e mulher, do efémero da paixão, a que a liberdade veio, de forma crua e violenta, tirar a máscara hipócrita que as pretendia eternizar no limbo da paciência, por que Deus é misericordioso e compensa com juros, galáxias celestiais e brancas asas do paraíso quem na terra sofra infernos e ultrajes. Estamos, neste terreno dos afectos, cada vez mais sós e responsáveis únicos pelos nossos actos: daí a angústia sem remissão. João permanece apaixonado por Elisa mas ela já não o ama, precisa de espaço, diz-lhe, um outro espaço onde possa finalmente afirmar-se em plenitude, ser plenamente – estranha e insuportável rebeldia, vinda de uma mulher ainda ontem submissa, ainda ontem partilhando sonhos, dificuldades, um filho, a vida – mas o futuro é o tempo que passa, é o momento único e irrepetível que vivemos, e o amor só é eterno enquanto dura, como escreveu o Vinícius que do amor e da sua efemeridade sabia tanto como de um bom uísque de malte. Maria Lamas, em Mulheres do Meu País, já decifrara esse purgatório das frustrações ocultadas, que Modesto Navarro inscreve neste livro. “Ao debruçar-se sobre a vida doméstica (“oásis onde – segundo Salazar – os filhos de Portugal são formados”), Maria Lamas encontra não o santo equilíbrio de que os salazaristas e outros conservadores faziam o panegírico, mas um sistema fechado sobre si mesmo que tendia à amargura e ao inevitável desgaste dos mais fortes afectos”. (1) É deste purgatório tolhedor que Elisa tenta, em ruptura, escapar. (1) – Maria João Martins – O Paraíso Triste – Pág. 119 - Ed. Vega O triângulo amoroso completa-se com Eduardo, que ama Elisa e a quem ela se entrega mais por necessidade de fuga a um quotidiano sufocante do que por verdadeiramente o amar. Elisa é uma mulher em busca do seu espaço, da sua identidade, do seu lugar: essa busca é obsessiva e não deixa lugar no peito para as amarras da paixão. Por isso, sabedora dessa impossibilidade, Elisa desaparece algures numa praia do sul, ou morreu de intoxicação alimentar – suspensão e dúvida, o leitor que conclua que para isso foi convocado e se fez cúmplice. Com Eduardo regressamos ao imaginário mais impressivo de Modesto Navarro, às suas memórias da terra transmontana, à vila, à oficina, ao espaço dos afectos primordiais. E é no contar as estórias desse espaço, no sensível diegético que as enforma, que esta fala se alarga e ganha asas, é mordente e tocante de clamor e êxtase, como acontece em algumas das melhores páginas de O Coração da Terra. Modesto, para nosso contentamento, traz o coração atravessado dessas memórias e no-las vai vertendo, com parcimónia que roça a timidez, ao longo das páginas da sua já considerável obra. Com esta novela, o autor de Seis Mulheres na Madrugada, regressa à análise das relações dos casais no Portugal pós 25 de Abril de 1974. Modesto Navarro, serve-se de uma estrutura narrativa próxima do policial (género em que o autor se movimenta dextro), para nos falar das relações falhadas (tema já abordado em A Insubmissa) da angústia e dos medos que perpassam este nosso tempo e tocam uma geração que se sente à deriva e desapossada de referentes identitários num país que, depois da esperança e da solidariedade libertária, enfrenta desarmada e confusa a cupidez neo-liberal. Mulher Desaparecida a Sul, é uma novela construída sobre os estilhaços do desencanto e dele o autor, com um despojamento narrativo exemplar, na forma como as elipses se estruturam (há algo de faulkeleriano neste modo de contar) traça um impressivo, nostálgico e arrebatado retrato. Mulher Desaparecida a Sul é, portanto, uma novela vigorosa e sensível, abordando os nossos medos face a um mundo que desaba e do qual não sabemos prever o futuro que virá. A vida e seus inumeráveis segredos. Brilhante começo de uma nova colecção da Cosmos, que se assume como biblioteca onde os autores portugueses de referência poderão encontrar espaço para a publicação de textos que expressem as profundas inquietações deste nosso tempo.
in; Domingos Lobo
in; Domingos Lobo
terça-feira, 10 de junho de 2008
São os loucos de Lisboa

Parava no café quando eu lá estava
Na voz tinha o talento dos pedintes
Entre um cigarro e outro lá cravava a bica, ao melhor dos seus ouvintes
As mãos e o olhar da mesma cor
Cinzenta como a roupa que trazia
Num gesto que podia ser de amor
Sorria, e ao partir agradecia
São os loucos de Lisboa
Que nos fazem duvidar
A Terra gira ao contrário
E os rios nascem no mar
Um dia numa sala do quarteto
Passou um filme lá do hospital
Onde o esquecido filmado no gueto
Entrava como artista principa
lCompramos a entrada p'ra sessão
Pra ver tal personagem no écran
O rosto maltratado era a razão
De ele não aparecer pela manhã
Mudamos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia
Deixamos de tributo a quem lá pára
Um louco a fazer-lhe companhia
E sempre a mesma posse o mesmo olhar
De quem não mede os dias que vagueam
Sentado la continua a cravar
Beijinhos as meninas que passeiam.
Na voz tinha o talento dos pedintes
Entre um cigarro e outro lá cravava a bica, ao melhor dos seus ouvintes
As mãos e o olhar da mesma cor
Cinzenta como a roupa que trazia
Num gesto que podia ser de amor
Sorria, e ao partir agradecia
São os loucos de Lisboa
Que nos fazem duvidar
A Terra gira ao contrário
E os rios nascem no mar
Um dia numa sala do quarteto
Passou um filme lá do hospital
Onde o esquecido filmado no gueto
Entrava como artista principa
lCompramos a entrada p'ra sessão
Pra ver tal personagem no écran
O rosto maltratado era a razão
De ele não aparecer pela manhã
Mudamos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia
Deixamos de tributo a quem lá pára
Um louco a fazer-lhe companhia
E sempre a mesma posse o mesmo olhar
De quem não mede os dias que vagueam
Sentado la continua a cravar
Beijinhos as meninas que passeiam.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Aconteceu-me do Alto do Infinito
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida.
Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e través estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma cousa de alma do que é meu.
Narrei-me à sombra e não me achei sentido.
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
Fernando Pessoa
Esta vida.
Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e través estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma cousa de alma do que é meu.
Narrei-me à sombra e não me achei sentido.
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
Fernando Pessoa
terça-feira, 29 de abril de 2008
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Trova do Vento que Passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraçao
vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das água
se os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoa
sai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificadanos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
poema de Manuel Alegre
imagen de Antonio Almeida Felizes
terça-feira, 15 de abril de 2008
segunda-feira, 14 de abril de 2008
A Europa, obra de paz

A Europa, obra de paz e de reconciliação, nunca tentou afirmar a sua posição no mundo, depois da segunda Guerra Mundial, a não ser através da exemplaridade dos seus sistemas de arbitragem.
À medida que o seu peso económico e comercial foi crescendo, a União Europeia passou a ser solicitada no sentido de desempenhar o seu papel de potência mediadora e de força de equilíbrio no mundo.
sábado, 12 de abril de 2008
A morte saiu à rua
A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
a gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai
O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu
Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação
Zeca Afonso (poema)
sexta-feira, 11 de abril de 2008
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Ai se mestre Gil, cá viesse
A formiga no carreiro
Vinha em sentido cantrário
Caiu ao Tejo
Ao pé dum septuagenário
Larpou trepou às tábuas
Que flutuavam nas àguas
E de cima duma delas
Virou-se prò formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
A formiga no carreiro
Vinha em sentido diferente
Caiu à rua
No meio de toda a gente
Buliu buliu abriu as gâmbias
Para trepar às varandas
E de cima duma delas
Virou-se prò formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
A formiga no carreiro
Andava a roda da vida
Caiu em cima
Duma espinhela caída
Furou furou à brava
Numa cova que ali estava
E de cima duma delas
Virou-se prò formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
Poema de Zeca Afonso
Vinha em sentido cantrário
Caiu ao Tejo
Ao pé dum septuagenário
Larpou trepou às tábuas
Que flutuavam nas àguas
E de cima duma delas
Virou-se prò formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
A formiga no carreiro
Vinha em sentido diferente
Caiu à rua
No meio de toda a gente
Buliu buliu abriu as gâmbias
Para trepar às varandas
E de cima duma delas
Virou-se prò formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
A formiga no carreiro
Andava a roda da vida
Caiu em cima
Duma espinhela caída
Furou furou à brava
Numa cova que ali estava
E de cima duma delas
Virou-se prò formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
Poema de Zeca Afonso
terça-feira, 8 de abril de 2008
domingo, 6 de abril de 2008
Vergonha
quarta-feira, 2 de abril de 2008
terça-feira, 1 de abril de 2008
quinta-feira, 27 de março de 2008
john wolf

O Livro " Portugal Traduzido" será sem dúvida um livro de excelência que a as Edições Cosmos, apresentarão no dia 9 de maio de 2008 às 21 horas, na Tertúlia " Poiso do Besouro" na Chamusca.
Acção critica ao nosso país visto por um Norte Americano radicado no nosso país à mais de uma década.
Sessão de apresentação a não perder
terça-feira, 25 de março de 2008
Congresso Internacional Romance Antigo
Marília P. Futre PinheiroChair of the Organizing Committee of ICAN IV - International Conference on the Ancient Novel that will be held from 21 to 26 July 2008 in Lisbon, Portugal
Marília P. Futre Pinheiro - Edições Cosmos,
Editor-in-chief, "Labirintos de Eros"
(Portuguese translations of the Ancient Greek Novels), Lisboa.
segunda-feira, 24 de março de 2008
terça-feira, 18 de março de 2008
segunda-feira, 17 de março de 2008
Liberdade

Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa
domingo, 16 de março de 2008
PALAVRAS DO REI SALOMÃO

Existe um tempo próprio para tudo,
E há uma época para cada coisa debaixo do céu:
Um tempo para nascer e um tempo para morrer;
Um tempo para nascer e um tempo para morrer;
Um tempo para plantar e um tempo para colher o que se semeou;
Um tempo para matar, um tempo para curar as feridas;
Um tempo para matar, um tempo para curar as feridas;
Um tempo para destruir e outro para reconstruir;
Um tempo para chorar e um tempo para rir;
Um tempo para chorar e um tempo para rir;
Um tempo para se lamentar e outro para dançar de alegria;
Um tempo para espalhar pedras, um tempo para juntá-las;
Um tempo para espalhar pedras, um tempo para juntá-las;
Um tempo para abraçar, e um tempo para afastar-se;
Um tempo para procurar e outro para perder;
Um tempo para procurar e outro para perder;
Um tempo para armazenar e um para distribuir;
Um tempo para rasgar e outro para coser;
Um tempo para rasgar e outro para coser;
Um tempo para estar calado e outro tempo para falar;
Um tempo para amar, e um tempo para odiar;
Um tempo para amar, e um tempo para odiar;
Um tempo para a guerra, e um tempo para a paz.
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